De dentro, não vejo.
Imagens, expostas.
Se foco se perdem.
Me entrego.
Depois me interpretam.
Me julgam, me vendem,
me esquecem, me amam.
E eu, não vendo,
só sinto, me lanço.
De dentro, não vejo.
Imagens, expostas.
Se foco se perdem.
Me entrego.
Depois me interpretam.
Me julgam, me vendem,
me esquecem, me amam.
E eu, não vendo,
só sinto, me lanço.
Mais uma vez aquela pontualidade. Já obcecado, esperava todo dia oito como se fosse o último de minha vida. Poderia-se afirmar que era. Espectador solitário, em todos os sentidos de cada palavra e da expressão como um todo, decidi abraçar o papel de protagonista naquela história, saindo apenas do diário que ampliava mensalmente. Aprontei algumas mudas de roupa, tomei um café, um taxi, um avião.
Em meio às nuvens, viajava nas possibilidades. Maldita hipocrisia, em que momento deixamos de ser bem quistos, indagava ao cigarro, enquanto agilmente o fazia deslizar por entre os meus dedos. Um chá, por favor. E fones. Somente o improviso do Blues toca-me os ouvidos.
Afujentei o medo do novo com um cowboy duplo, doze anos, num bar próximo à simpática pousada a qual me hospedei no centro da cidade. Sabia que seria a noite mais longa da minha vida. E foi. Vi o sol nascer de relance, pelo reflexo na parede do prédio à minha frente. Antes do sol, observava silhuetas passeando por essa mesma parede, vindas de diferentes apartamentos. E para cada imagem, um personagem, um enredo. Os grandes centros urbanos têm esse lado sombrio.
Acendi o último cigarro, o primeiro daquela manhã. Fui ao modesto café da manhã, servido em uma mesa improvisada no final do corredor, próximo ao banheiro coletivo. Aquela pousada me tranquilizava, já havia estado ali antes. Pelo menos minha memória tinha aquela imagem, aquele clima familiar. Uma senhora muito simpática falava pelos cotovelos. Sem dar muita atenção, peguei uma fruta e caminhei, apressadamente.
Prédio imponente, corredores largos, pé-direito duplo na anti-sala, biblioteca invejável, vista paradisíaca, secretária particular. Sapatos impecáveis, terno alinhado, olhar penetrante porém triste. Diante daquele homem, tremi. Sentei-me e, antes mesmo de me apresentar, abri o diário e li.
"Junho de 1993. Querido avô, por algum período eu precisei trabalhar dois turnos para conseguir pagar a minha faculdade e, graças à sua ajuda, realizei meu sonho e hoje sou um bacharel. Tenho um bom emprego, comprei o carro dos nossos sonhos, um Maverick 1977 V8 Vermelho. A reforma dele fica pronta agora no final do mês. Passo aí na sua casa para darmos umas voltas pela cidade. Fique com Deus. Arthur."
"Julho de 1993. Querido avô, este final de semana é o da exposição anual de arrancadas e adivinha quem vai estar lá? O senhor, acompanhado da Dorothy. Ela foi selecionada, será o destaque da prova principal. Será uma grande honra o senhor inaugurá-la para mim. Ficaremos hospedados com tudo pago. Seu neto só te leva pra boa, não? Feliz aniversário. Beijos, Arthur."
"Agosto de 1993. Querido avô, não sei como o senhor não sabia da minha formatura, do meu carro, da nossa competição, do nosso sonho. Estou novamente enviando-lhe uma carta, desta vez como um pedido de desculpa. Espero que esta não chegue também. Ou que chegue, e o senhor possa retirar tudo o que foi dito no seu jantar de aniversário. Eu apareci lá sim com cheiro de óleo, com macacão, e com o troféu. E não foi como afronta, foi como um presente para o senhor, já que não pode comparecer à corrida. Desculpe pelo desabafo. Te amo. Arthur."
"Setembro de 1993. Querido avô, acabei de saber que a empresa em que trabalho, faliu. No final do mês estaremos todos despedidos e comecei a sentir a gastrite novamente. O ruim é a dor e o incômodo que ela causa, a parte boa é que ela sempre para de doer, nem que seja por pouco tempo. Amanhã vou levar a Dorothy para conhecer a nossa velha estrada. Tentei te ligar o mês inteiro. Te amo, Arthur."
"Outubro de 1993. Querido avô, estou de mudança. Resolvi buscar um mercado de trabalho mais consolidado, não batalhei tanto para acabar me rendendo aos concursos públicos. Em quinze dias, estarei recomeçando minha vida, em outra cidade. A Dorothy vai ficar com meu irmão enquanto eu me acerto e alugo um cantinho pra mim. Ou não. Gostaria que tivesse vindo ao meu aniversário, no sábado passado. Te amo. Arthur."
Ainda tremulo virei outra página e, antes de começar a ler, suspirei encarando aquele rosto ainda confusamente familiar. Notei uma lágrima que, antes de lhe escorrer toda a face, foi suavemente secada com um lenço. Hesitei por um momento, mas prossegui.
"Dezembro de 1993. Querido avô, esse será o meu primeiro natal longe da família. Gostaria de estar aí na hora do discurso, na hora do amigo secreto, na hora de brigar pelas duas coxas do chester, na hora de ganhar o afago e o esporro nosso de cada natal. Tenho me virado bem aqui. Estar longe não significa estar sozinho, pois trago os ensinamentos e os momentos que passei com cada um. Cada momento. Feliz natal. Mande lembranças á Dorothy, meu irmão deve levá-la para a festa. Um grande beijo, Arthur.
"Janeiro de 1994. Querido avô, estar numa cidade litoranea é como sentir o cheiro da comida do vizinho: você sabe que não pode, mas morre de vontade de ir lá se esbaldar. Aprendo a contentar-me com a brisa e com o estilo de vida, enquanto procuro emprego fixo. Aprendo sobre a saudade, sobre a vida. A distância tem feito uma faxina em minha cabeça, relembro cada momento de minha vida. Funciona como uma televisão, vou mudando de canal procurando algo interessante e vendo pequenos fragmentos de cada momento. O curioso é como ele tende a se juntar e formar mais amor. Ando melancólico. Já conheceu a Dorothy? Beijos, Arthur."
Neste momento, nossos olhares se cruzaram. Antes que ele pudesse falar algo, entreguei-lhe o diário. Não tive como não reparar a atenção que ele deu para cada detalhe do diário, com acabamento artesanal. Não tinha mais clima para trabalho, saimos para almoçar.
– Meu avô, como você deve saber, é um senhor muito querido. Quando eu tinha cinco anos, fiz um desenho no colégio para ele. Uma casa com chaminé, um lago, um barco, poucas nuvens. É a imagem que eu tenho até hoje do sítio em que passamos as férias, um ano antes. Pescávamos nosso almoço, nossa janta. Foi uma viagem memorável. Meus pais não devem ter ido juntos, não lembro deles lá. Garçon, dois cowboys duplos, por favor. Fui até a agência dos correios com meu pai e postei minha primeira carta. No mês seguinte, outro desenho, depois mais outro. Quando aprendi a escrever, não foi diferente – após virar o copo num trago só, prosseguiu – sempre confiava-lhe minhas histórias. Dediquei um tempo sagrado para ele, talvez em retribuição àquela viagem da infância. Talvez como uma válvula de escape. Perdi o apitite. Preciso ir ao banco, me acompanhe. Eu pago a bebida. O tempo é implacável. Transforma... corrói.
Caminhamos por uma bela praça, como velhos amigos. Ele só falava, eu só ouvia. Não tinha como ser de outra forma. A luz do sol entre os galhos e folhas formava desenhos abstratos na grama verde, nas crianças que brincavam, nos casais. E, como um imenso balé sincronizado, mudavam seu foco nos detalhes, às investidas do vento. Observava esses detalhes para fugir do olhar do Arthur, meu velho novo amigo, que imendava um assunto no outro. Parecia estar nervoso, ansioso. Mas eu não o conhecia até então. Na verdade, ele não me conhecia.
– E essa distância, aliada ao tempo, moldam o mundo. Algumas pessoas esperam as transmutações do universo ao seu redor como uma forma de adequação ao seu ideal de universo. Meu avô nunca foi assim. E eu, particularmente, sou igual a ele. Sigo o lema de vida tradicional da família: "Apresso-me à vida tranquila, na plenitude do momento, marionete de mim mesmo". Me emocionei ao ouvi-lo lendo minhas cartas. Você soube personificar os meus sentimentos. Acho que ainda tenho alguns minutos, leia algo.
"Fevereiro de 1994. Querido avô, realmente uma partida de futebol na arquibancada do estádio é algo sobrenatural que produz um efeito paralizante. E o senhor tinha razão, é a religião do povo. Nada mais no mundo é capaz de extravasar tanto a tensão do dia-a-dia. Quase nada. Consegui um emprego intermediário, tá dando para me manter enquanto preparo o terreno para entrar de vez no circuito. Feito isso, ninguém me segura. Sinto falta das suas cartas, tem quase um ano que não as recebo. Enfim, só queria que soubesse que essas cartas me deram força para passar por tudo até aqui. Mande-me uma foto com a Dorothy para eu colocar num porta retrato. Beijos, Arthur."
"Março de 1994. Querido avô, encontrei uma pousadinha muito boa. O quarto é bem aconchegante, tenho televisão e uma mesa para estudo. No final do corredor, tem uma mesa igual àquela no sítio – que o senhor apelidou de mesa improvisada – onde servem um delicioso café da manhã. Virei amigo da merendeira, ela guarda um prato de janta toda noite para mim. O banheiro da pousada é coletivo, como naquele filme sobre mochileiros que assistíamos. Se não perdi as contas, já assistimos juntos nove vezes, sempre mais apaixonados pela Dorothy. Agora que tenho a minha, não posso queimar óleo por aí. Mas em breve vou buscá-la. O senhor quer vir comigo? Reveze comigo na estrada. Beijos, Arthur."
Enrolei-me um pouco lendo esta carta. Muitos pensamentos se cruzavam. Em que momento a minha memória se fundiu e algo que pensei, nesse caso li, tornou-se um acontecimento passado, parte de mim. A diária de ator freelancer naquela novela começou no café da manhã, na pousada. Eu estava vivendo nas cartas, na história, na vida dele.
"Maio de 1994. Querido avô, primeiro salário com carteira assinada como assistente. Saí com os novos amigos de trabalho, tomamos alguns chopps, estou começando a colher os frutos. Ainda não entendo tudo o que está acontecendo. Gostaria de ir visitar-lhe em julho, para a grande festa dos 70 anos. Já conversei com o meu chefe, vou me ausentar por dois dias apenas no trabalho, posso repor num final de semana. Não comente com ninguém da família, é surpresa. Beijos, Arthur."
"Junho de 1994. Querido avô, sinto que vou sentir muita falta da pousadinha. Aluguei um apartamento no centro da cidadeeee!! Uhuuu!! É pequeno, mas é bem aconchegante. E tem vaga na garagem. Vou trazer a Dorothy para morar comigo. Aos poucos vou conquistando minhas coisas. Parece um sonho. Mais do que isso. Mês que vem estarei aí, matando as saudades. Beijos, Arthur."
"Julho de 1994. Querido avô, a passagem de avião está muito cara, resolvi encarar um ônibus mesmo. É bom que já vejo as condições da estrada para a nossa volta com a Dorothy. Chego em casa cansado e aquela mágica não existe mais. Roupas limpas, comida feita, cozinha arrumada só quando eu faço. Morar sozinho exige muito de uma pessoa. Ainda me enrolo um pouco, mas estou adorando a experiência. Ontem me aventurei na cozinha e, lembrando de como o senhor fazia, tentei o meu primeiro escondidinho. Senti saudades. Por um momento achei uma delícia, mas era só a saudade. Com o tempo eu pego a mão. Até semana que vem. Te amo. Arthur."
Arthur, inquieto, levantou-se. Calado. Sem falar nada, pediu para que a leitura fosse interrompida. Sentou-se. Seu olhar, sempre moldurado com expressões firmes, tornou-se sereno. Estava revivendo cada momento de sua história. Com os dedos apertando os olhos, suspirou. Levantou-se novamente, andando à esmo. Comprou pipoca, metade doce, metade sal. Acendeu um cigarro que pediu ao pipoqueiro. Pagou-lhe uma boa gorjeta. Eu o observei de longe, enquanto ele atravessava a praça em passos largos. Precisava retomar o caminho ao banco. Observou um maverick que cruzava a rua paralela à praça. Andou calado duas quadras, até a porta do banco. Sussurrou algo sobre um cofre, e para que eu aguardasse uns instantes.
Foi fácil perceber que ele sabia o que viria, afinal ele é o protagonista do meu diário. O diário é ele, mas sou eu também. E sabíamos o que a festa de 70 anos tinha para nos contar. Uma história revivida pode ser modificada? Podemos até esquecer o que nos foi dito, mas nunca esqueceremos como nos sentimos. Talvez por isso o Arthur tenha me convidado para essa volta. De alguma forma, eu vivi essa história. De alguma forma ele pode estar grato e veio ao banco. Será que juntar cartas e fazer um acabamento com papel paraná me tornou rico?
Sabemos que foi muito mais do que juntar cartas. Eu acompanhei momentos que ninguém mais acompanhou. Eu acompanhei quando a vida dele virou duas. O coração lá, a cabeça aqui. E a cabeça senhora da razão convenceu o coração. Como um video-game: você pausa uma vida e começa outra. A primeira vida não acaba, mas passa a ser vivida somente na cabeça, na memória, na saudade. E não há tempo para sofrer, é hora de batalhar, fazer amigos, decorar nome de ruas, arranjar emprego, aprender a se virar. De uma forma ou de outra, você acaba aprendendo.
Nesse meio tempo, pessoas, ocasiões, locais (...) tudo é parte de você. E toda noite, chegar em casa. A casa amada, conquistada, suada. A casa dos sonhos no momento. E a cama de solteiro faz-se larga. O sofá vazio, a TV desligada, a louça limpa, os armários fechados. E, a cada manhã, amar o novo, a descoberta, o ensinamento, a dor. Aprender a amar a dor. Não desejá-la, mas lidar com ela. Ela sempre aparece.
Ser Arthur, ser Eduardo, ser humano. Reviver bons momentos no cinema da memória, dedicar um acabamento especial. Saber que a minha história, a sua hostória, que cada história tem um sentido. Encontrar novos. O diário feito a cada dia, com ensinamentos únicos. Materializar pensamentos, sentimentos. A rotina de um solitário, mago de minha própria existência. Marionete de mim mesmo.
Concretos paralelos
emoldurando luzes
Peregrino do novo
buscando a enseada
em passos eufóricos
[ tempo ]
Preces aglomeradas
contrariam previsões
Batalhas, empates, vitórias
em mais um giro solar
ciclo constante
Não controlo, melhoro
questões
me reinvento a cada dia
deixo o dia me inventar
Apresso-me à vida tranquila
na plenitude do momento
marionete de mim mesmo
Entrou, de sorte que não percebi,
levando-me o aparelho de bombear.
Desfaleci por instantes, até perceber
o seu, em mim, a pulsar.
A busca por respostas serve para abstrair
a sensação que não sabemos sentir,
motivando-nos a agrupar fragmentos
em mosaicos, com remendos dogmáticos,
formando uma válvula que exprime-se
mais pelo alívio do que pela explicação.
Aquilo que eu sempre fiz tão bem
tornou-se agora um obstáculo
antes era fácil fechar os olhos e adormecer
agora, quando os fecho, só penso em você
E a cama sempre tão confortável
tornou-se grande e solitária
eu esparramado tentando preencher
o vazio da sua ausência
Dormi para fugir da distância
sonhei tentado te encontrar
acordei feliz e triste
pois te vi a noite toda mas você não estava lá
Vendo aquelas lágrimas
brotarem dos seus olhos
senti uma emoção
que me paralisou os sentidos
e, esforçando-me para falar-te,
chorei.
Pois se existisse
uma forma linear
manual, bula ou método
que me fizesse caminhar
eu perderia a oportunidade
de experimentar
esse mundo que eu(me) deixo(a)
de pernas pro ar.
Madrugada adentro
riscando o papel
buscando materializar-te.
Paradoxo sentimental
que faz meu coração
brigar, não bater.
Sem você meu coração
é como uma casa
sem acabamento
pode até ser poético
mas sabemos que vai contrário
a todo senso estético
Harmoniza-se no umbigo
a fronteira do palmo radial
num sentido, sentimento
no oposto eu sou carnal.
O avesso do avesso tão substancial
perde sua forma dita original
quando o encontro de olhares no infinito casual
atinge e marca a alma de modo especial.
A velocidade do mundo
nos faz prisioneiros
de nós mesmos.
Outrora aguardava-se
dias, meses, anos (...)
à espera de uma notícia.
Mas como acalmar meu coração
se ela ainda não me ligou?
Matemáticamente é o "x" fatorial
Metaforicamente a espiga e o milharal
Incrivelmente local e mundial
Divinamente celestial e imoral
Judicialmente penal e criminal
Poeticamente transcrição textual
Belicamente arsenal imparcial
Luta_da_mente o bem contra o mal
Inversamente proporcional
à relatividade temporal
canta, agora, semi-tonal
na parede, triste, o meu pardal.