"Maio de 1994. Querido avô, primeiro salário com carteira assinada como assistente. Saí com os novos amigos de trabalho, tomamos alguns chopps, estou começando a colher os frutos. Ainda não entendo tudo o que está acontecendo. Gostaria de ir visitar-lhe em julho, para a grande festa dos 70 anos. Já conversei com o meu chefe, vou me ausentar por dois dias apenas no trabalho, posso repor num final de semana. Não comente com ninguém da família, é surpresa. Beijos, Arthur."
"Junho de 1994. Querido avô, sinto que vou sentir muita falta da pousadinha. Aluguei um apartamento no centro da cidadeeee!! Uhuuu!! É pequeno, mas é bem aconchegante. E tem vaga na garagem. Vou trazer a Dorothy para morar comigo. Aos poucos vou conquistando minhas coisas. Parece um sonho. Mais do que isso. Mês que vem estarei aí, matando as saudades. Beijos, Arthur."
"Julho de 1994. Querido avô, a passagem de avião está muito cara, resolvi encarar um ônibus mesmo. É bom que já vejo as condições da estrada para a nossa volta com a Dorothy. Chego em casa cansado e aquela mágica não existe mais. Roupas limpas, comida feita, cozinha arrumada só quando eu faço. Morar sozinho exige muito de uma pessoa. Ainda me enrolo um pouco, mas estou adorando a experiência. Ontem me aventurei na cozinha e, lembrando de como o senhor fazia, tentei o meu primeiro escondidinho. Senti saudades. Por um momento achei uma delícia, mas era só a saudade. Com o tempo eu pego a mão. Até semana que vem. Te amo. Arthur."
Arthur, inquieto, levantou-se. Calado. Sem falar nada, pediu para que a leitura fosse interrompida. Sentou-se. Seu olhar, sempre moldurado com expressões firmes, tornou-se sereno. Estava revivendo cada momento de sua história. Com os dedos apertando os olhos, suspirou. Levantou-se novamente, andando à esmo. Comprou pipoca, metade doce, metade sal. Acendeu um cigarro que pediu ao pipoqueiro. Pagou-lhe uma boa gorjeta. Eu o observei de longe, enquanto ele atravessava a praça em passos largos. Precisava retomar o caminho ao banco. Observou um maverick que cruzava a rua paralela à praça. Andou calado duas quadras, até a porta do banco. Sussurrou algo sobre um cofre, e para que eu aguardasse uns instantes.
Foi fácil perceber que ele sabia o que viria, afinal ele é o protagonista do meu diário. O diário é ele, mas sou eu também. E sabíamos o que a festa de 70 anos tinha para nos contar. Uma história revivida pode ser modificada? Podemos até esquecer o que nos foi dito, mas nunca esqueceremos como nos sentimos. Talvez por isso o Arthur tenha me convidado para essa volta. De alguma forma, eu vivi essa história. De alguma forma ele pode estar grato e veio ao banco. Será que juntar cartas e fazer um acabamento com papel paraná me tornou rico?
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