20 março 2010

DIÁRIO ENCARTADO - PARTE 3/5

– Meu avô, como você deve saber, é um senhor muito querido. Quando eu tinha cinco anos, fiz um desenho no colégio para ele. Uma casa com chaminé, um lago, um barco, poucas nuvens. É a imagem que eu tenho até hoje do sítio em que passamos as férias, um ano antes. Pescávamos nosso almoço, nossa janta. Foi uma viagem memorável. Meus pais não devem ter ido juntos, não lembro deles lá. Garçon, dois cowboys duplos, por favor. Fui até a agência dos correios com meu pai e postei minha primeira carta. No mês seguinte, outro desenho, depois mais outro. Quando aprendi a escrever, não foi diferente – após virar o copo num trago só, prosseguiu – sempre confiava-lhe minhas histórias. Dediquei um tempo sagrado para ele, talvez em retribuição àquela viagem da infância. Talvez como uma válvula de escape. Perdi o apitite. Preciso ir ao banco, me acompanhe. Eu pago a bebida. O tempo é implacável. Transforma... corrói.


Caminhamos por uma bela praça, como velhos amigos. Ele só falava, eu só ouvia. Não tinha como ser de outra forma. A luz do sol entre os galhos e folhas formava desenhos abstratos na grama verde, nas crianças que brincavam, nos casais. E, como um imenso balé sincronizado, mudavam seu foco nos detalhes, às investidas do vento. Observava esses detalhes para fugir do olhar do Arthur, meu velho novo amigo, que imendava um assunto no outro. Parecia estar nervoso, ansioso. Mas eu não o conhecia até então. Na verdade, ele não me conhecia.


– E essa distância, aliada ao tempo, moldam o mundo. Algumas pessoas esperam as transmutações do universo ao seu redor como uma forma de adequação ao seu ideal de universo. Meu avô nunca foi assim. E eu, particularmente, sou igual a ele. Sigo o lema de vida tradicional da família: "Apresso-me à vida tranquila, na plenitude do momento, marionete de mim mesmo". Me emocionei ao ouvi-lo lendo minhas cartas. Você soube personificar os meus sentimentos. Acho que ainda tenho alguns minutos, leia algo.


"Fevereiro de 1994. Querido avô, realmente uma partida de futebol na arquibancada do estádio é algo sobrenatural que produz um efeito paralizante. E o senhor tinha razão, é a religião do povo. Nada mais no mundo é capaz de extravasar tanto a tensão do dia-a-dia. Quase nada. Consegui um emprego intermediário, tá dando para me manter enquanto preparo o terreno para entrar de vez no circuito. Feito isso, ninguém me segura. Sinto falta das suas cartas, tem quase um ano que não as recebo. Enfim, só queria que soubesse que essas cartas me deram força para passar por tudo até aqui. Mande-me uma foto com a Dorothy para eu colocar num porta retrato. Beijos, Arthur."


"Março de 1994. Querido avô, encontrei uma pousadinha muito boa. O quarto é bem aconchegante, tenho televisão e uma mesa para estudo. No final do corredor, tem uma mesa igual àquela no sítio – que o senhor apelidou de mesa improvisada – onde servem um delicioso café da manhã. Virei amigo da merendeira, ela guarda um prato de janta toda noite para mim. O banheiro da pousada é coletivo, como naquele filme sobre mochileiros que assistíamos. Se não perdi as contas, já assistimos juntos nove vezes, sempre mais apaixonados pela Dorothy. Agora que tenho a minha, não posso queimar óleo por aí. Mas em breve vou buscá-la. O senhor quer vir comigo? Reveze comigo na estrada. Beijos, Arthur."


Enrolei-me um pouco lendo esta carta. Muitos pensamentos se cruzavam. Em que momento a minha memória se fundiu e algo que pensei, nesse caso li, tornou-se um acontecimento passado, parte de mim. A diária de ator freelancer naquela novela começou no café da manhã, na pousada. Eu estava vivendo nas cartas, na história, na vida dele.

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